Sunday, April 25, 2010

dead past


_______________
(...)
Levar a vida a lembrar
um triste e morto passado,
é como querer habitar
um lar sem chão nem telhado.

Sunday, March 21, 2010

simple things


________________
Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.

Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.

Nem as espranças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.

Libertação; David Mourão-Ferreira

Sunday, November 01, 2009

mirror


________________________
En la mañana verde,
quería ser corazón.
Corazón.

Y en la tarde madura
quería ser ruiseñor.
Ruiseñor.

(Alma,
ponte color de naranja.
Alma,
ponte color de amor)

En la mañana viva,
yo quería ser yo.
Corazón.

Y en la tarde caída
quería ser mi voz.
Ruiseñor.

¡Alma,
ponte color naranja!
¡Alma,
ponte color de amor!

Canciocilla del primer deseo; Federico García Lorca

_________________________
In the green morning
I wanted to be a heart.
A heart.

And in the ripe evening
I wanted to be a nightingale.
A nightingale.

(Soul,
Turn orangecolored.
Soul,
Turn the color of love.)

In the vivid morning
I wanted to be myself.
A heart.

And at the evening's end
I wanted to be my voice.
A nightingale.

Soul,
Turn orangecolored.
Soul,
Turn the color of love.

Ditty of first desire; Federico García Lorca